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GR no transporte de cargas: tecnologias além do rastreamento

O criminoso que assalta caminhões na pista continua existindo. Só que ele deixou de ser o principal problema da operação do transporte de cargas. Hoje, boa parte do prejuízo começa

Sumário

O criminoso que assalta caminhões na pista continua existindo. Só que ele deixou de ser o principal problema da operação do transporte de cargas.

Hoje, boa parte do prejuízo começa bem antes: um cadastro clonado, um WhatsApp que parece do motorista certo, uma coleta autorizada por quem não devia. A carga não é mais tomada à força. Agora ela é entregue, com nota, MDF-e e tudo em ordem no papel.

É por isso que o rastreador não pode ser a única ferramenta do gerenciamento de risco (GR). Então, você vai ver agora como estruturar um GR 2.0 em cinco camadas, o que as seguradoras já estão cobrando na renovação da apólice e como reduzir a sinistralidade.

O risco mudou de endereço: da pista para o cadastro

Para começar, confira os números que mostram a mudança.

Isso significa menos ocorrências, tickets médios maiores e uma fatia crescente das perdas por fraude documental e engenharia social, não de confronto armado.

Os quatro golpes que mais entram pela homologação

Para entender como se proteger, é importante conhecer os principais golpes. Veja abaixo.

1. Clonagem de perfil do motorista

O criminoso copia CNH, CPF e foto de um caminhoneiro real e negocia usando a identidade dele. Normalmente é clonagem de dados de alguém que teve documentos furtados.

2. Triangulação do frete

O golpista negocia com a empresa usando os dados de um profissional legítimo, recebe o adiantamento em conta própria e some. A empresa paga, o caminhoneiro trabalha e ninguém recebe. Nesse caso da triangulação, os dois lados são vítimas.

3. Falsa transportadora/ coleta fraudulenta

Criminosos se passam por embarcadores ou transportadores conhecidos, criam senso de urgência e retiram a mercadoria com documentação aparentemente válida.

4. Desvio de entrega por engenharia social

No meio da viagem, alguém liga para o motorista informando que tem uma “reforma no depósito”, passa um novo endereço e a carga é entregue no lugar errado.

Repare no padrão: em nenhum dos quatro o rastreador acusa alguma coisa. O veículo está onde deveria. O problema é quem está dirigindo e com quem sua equipe está falando.

Por que rastreamento não é gerenciamento de risco

Infelizmente, o rastreador só te diz onde está o veículo e isso não é o suficiente. Por outro lado, o gerenciamento de risco deve te informar:

  • Quem é essa pessoa, de verdade?
  • Ela tem histórico compatível com essa carga e essa rota?
  • O canal de negociação é rastreável e auditável?
  • Existe prova documental do processo, se der sinistro?

E se a operação só rastreia, acaba tendo um problema com a seguradora na hora do sinistro. Quando o desvio decorre de falha na checagem do prestador, o agravamento de risco e descumprimento do plano de GR podem atrasar ou cancelar a indenização.

GR 2.0: as cinco camadas de proteção da operação

Cada camada cobre um vetor de ataque diferente. Assim, a força do conjunto está na sobreposição delas.

Camada 1: identidade comprovada

É aqui que a fraude moderna é interceptada.

  • Prova de vida e comparação biométrica entre a selfie do momento e a foto oficial vinculada à CNH
  • Validação de CPF e CNH em bases oficiais
  • Checagem do veículo: placa, CRLV, vínculo entre motorista e proprietário, presença de rastreador
  • Consistência de contato: o telefone usado na negociação precisa ser o mesmo do cadastro validado

Na Fretebras, essa camada é operada pelo Check.AI, que reúne validação facial, checagem documental em órgãos públicos e birôs privados e análise de perfil de risco do motorista. O resultado aparece no perfil verificado dentro da plataforma.

Camada 2: reputação

O histórico é um registro do comportamento ao longo do tempo. Ele precisa informar:

  • Histórico de viagens (o que transportou, para quem, em quais rotas)
  • Avaliações de embarcadores e transportadoras anteriores
  • Consistência de geolocalização e check-ins ao longo da operação
  • Score de risco ou nota combinando esses sinais

Um cadastro “limpo” e recém-criado, sem nenhum histórico é um sinal de alerta.

Camada 3: canal

A maior parte das fraudes de triangulação acontece porque a negociação migra para o WhatsApp. Como fora da plataforma não tem registro auditável nem suporte, não é possível provar nada depois.

Confira algumas regras práticas para o time comercial e de contratação:

  • Sempre formalizar a negociação dentro do sistema
  • Nunca pagar adiantamento para conta de terceiros
  • Emitir o CIOT para toda operação com transportador autônomo e manter o vínculo com o MDF-e
  • Bloquear alteração de local de entrega por telefone

Camada 4: monitoramento

O rastreamento continua sendo necessário, só não é suficiente sozinho. Então acompanhe:

  • A ordem de coleta digital com aceite registrado do motorista
  • Os checkpoints de viagem e comparação com o plano de rota
  • Os alertas de parada não prevista, desvio de itinerário e horários de risco
  • A comunicação centralizada com o motorista, com trilha de auditoria

Camada 5: governança

Essa é a camada que o gestor de GR esquece de tratar como tecnologia e que a seguradora lê primeiro.

Desde a Lei n.º 14.599/2023, o transportador rodoviário de cargas precisa contratar três seguros: RCTR-C (danos à carga em acidentes), RC-DC (desaparecimento de carga por roubo, furto, apropriação indébita, estelionato e extorsão) e RC-V (danos a terceiros). A lei também amarrou as coberturas ao Plano de Gerenciamento de Riscos (PGR).

Em seguida veio o aperto de fiscalização:

  • A Resolução ANTT n.º 6.068/2025 condicionou a inscrição e a manutenção no RNTRC à comprovação da contratação desses seguros
  • A Portaria Suroc n.º 27/2025 definiu os procedimentos de comprovação, com integração eletrônica entre seguradoras e ANTT prevista para plena implementação a partir de 10 de março de 2026
  • As exigências de comprovação para manutenção do registro passaram a valer na prática ao longo de 2026, com risco de suspensão do RNTRC para quem não comprovar

Na prática, para a sua operação, isso significa: a apólice regular virou condição de operar, o PGR virou documento vivo e fiscalizável e a evidência de checagem de cada motorista virou ativo de sinistro. Assim, guarde o comprovante de validação porque ele costuma ser exigido pela seguradora na regulação.

O impacto direto na apólice de seguro de carga

Risco, para a seguradora, é a combinação entre o perfil da carga, a rota e a qualidade do seu processo de gestão. O que costuma pesar na negociação da renovação:

Fator O que a seguradora avalia Como o GR 2.0 melhora
Sinistralidade histórica Frequência e severidade dos eventos Menos desvios por fraude na contratação
Aderência ao PGR O plano é cumprido ou existe só no papel? Processo padronizado e auditável
Homologação de prestadores Como o motorista terceiro é validado Biometria + checagem oficial + histórico
Rastreabilidade da operação Existe trilha documental? Negociação, coleta e pagamento registrados

Ou seja, em vez de focar em pagar menos, é importante se informar antes sobre o que está incluído na cobertura.

Diagnóstico: em que nível está o seu GR?

☐ Nível 1: reativo
Rastreador instalado, checagem manual por planilha, negociação por WhatsApp, PGR desatualizado. Exposto a triangulação e clonagem.

☐ Nível 2: padronizado
Checagem documental sistemática, PGR em dia, seguros regulares, rastreamento com alertas. Ainda vulnerável para fraude de identidade sofisticada.

☐ Nível 3: GR 2.0
Validação biométrica com prova de vida, score de risco por histórico, negociação e pagamento auditáveis na mesma plataforma, monitoramento por checkpoints e evidência documental arquivada por operação.

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