O criminoso que assalta caminhões na pista continua existindo. Só que ele deixou de ser o principal problema da operação do transporte de cargas.
Hoje, boa parte do prejuízo começa bem antes: um cadastro clonado, um WhatsApp que parece do motorista certo, uma coleta autorizada por quem não devia. A carga não é mais tomada à força. Agora ela é entregue, com nota, MDF-e e tudo em ordem no papel.
É por isso que o rastreador não pode ser a única ferramenta do gerenciamento de risco (GR). Então, você vai ver agora como estruturar um GR 2.0 em cinco camadas, o que as seguradoras já estão cobrando na renovação da apólice e como reduzir a sinistralidade.
O risco mudou de endereço: da pista para o cadastro
Para começar, confira os números que mostram a mudança.
- O Brasil registrou 8.570 roubos de carga em 2025, queda de 16,7% frente a 2024
- Mas o prejuízo não caiu no mesmo ritmo. Levantamento da NTC&Logística apontou cerca de R$ 1,2 bilhão em perdas em 2024
- O crime ficou mais seletivo. Um relatório da nstech do 1º trimestre de 2026 mostra o Sudeste concentrando 78,2% dos prejuízos nacionais e a madrugada saltando de 12,4% para 28% das ocorrências
- No campo digital, a Serasa Experian registrou quase 1,5 milhão de tentativas de fraude em cadastros e validações de identidade só no 1º trimestre de 2026
Isso significa menos ocorrências, tickets médios maiores e uma fatia crescente das perdas por fraude documental e engenharia social, não de confronto armado.
Os quatro golpes que mais entram pela homologação
Para entender como se proteger, é importante conhecer os principais golpes. Veja abaixo.
1. Clonagem de perfil do motorista
O criminoso copia CNH, CPF e foto de um caminhoneiro real e negocia usando a identidade dele. Normalmente é clonagem de dados de alguém que teve documentos furtados.
2. Triangulação do frete
O golpista negocia com a empresa usando os dados de um profissional legítimo, recebe o adiantamento em conta própria e some. A empresa paga, o caminhoneiro trabalha e ninguém recebe. Nesse caso da triangulação, os dois lados são vítimas.
3. Falsa transportadora/ coleta fraudulenta
Criminosos se passam por embarcadores ou transportadores conhecidos, criam senso de urgência e retiram a mercadoria com documentação aparentemente válida.
4. Desvio de entrega por engenharia social
No meio da viagem, alguém liga para o motorista informando que tem uma “reforma no depósito”, passa um novo endereço e a carga é entregue no lugar errado.
Repare no padrão: em nenhum dos quatro o rastreador acusa alguma coisa. O veículo está onde deveria. O problema é quem está dirigindo e com quem sua equipe está falando.
Por que rastreamento não é gerenciamento de risco
Infelizmente, o rastreador só te diz onde está o veículo e isso não é o suficiente. Por outro lado, o gerenciamento de risco deve te informar:
- Quem é essa pessoa, de verdade?
- Ela tem histórico compatível com essa carga e essa rota?
- O canal de negociação é rastreável e auditável?
- Existe prova documental do processo, se der sinistro?
E se a operação só rastreia, acaba tendo um problema com a seguradora na hora do sinistro. Quando o desvio decorre de falha na checagem do prestador, o agravamento de risco e descumprimento do plano de GR podem atrasar ou cancelar a indenização.
GR 2.0: as cinco camadas de proteção da operação
Cada camada cobre um vetor de ataque diferente. Assim, a força do conjunto está na sobreposição delas.
Camada 1: identidade comprovada
É aqui que a fraude moderna é interceptada.
- Prova de vida e comparação biométrica entre a selfie do momento e a foto oficial vinculada à CNH
- Validação de CPF e CNH em bases oficiais
- Checagem do veículo: placa, CRLV, vínculo entre motorista e proprietário, presença de rastreador
- Consistência de contato: o telefone usado na negociação precisa ser o mesmo do cadastro validado
Na Fretebras, essa camada é operada pelo Check.AI, que reúne validação facial, checagem documental em órgãos públicos e birôs privados e análise de perfil de risco do motorista. O resultado aparece no perfil verificado dentro da plataforma.
Camada 2: reputação
O histórico é um registro do comportamento ao longo do tempo. Ele precisa informar:
- Histórico de viagens (o que transportou, para quem, em quais rotas)
- Avaliações de embarcadores e transportadoras anteriores
- Consistência de geolocalização e check-ins ao longo da operação
- Score de risco ou nota combinando esses sinais
Um cadastro “limpo” e recém-criado, sem nenhum histórico é um sinal de alerta.
Camada 3: canal
A maior parte das fraudes de triangulação acontece porque a negociação migra para o WhatsApp. Como fora da plataforma não tem registro auditável nem suporte, não é possível provar nada depois.
Confira algumas regras práticas para o time comercial e de contratação:
- Sempre formalizar a negociação dentro do sistema
- Nunca pagar adiantamento para conta de terceiros
- Emitir o CIOT para toda operação com transportador autônomo e manter o vínculo com o MDF-e
- Bloquear alteração de local de entrega por telefone
Camada 4: monitoramento
O rastreamento continua sendo necessário, só não é suficiente sozinho. Então acompanhe:
- A ordem de coleta digital com aceite registrado do motorista
- Os checkpoints de viagem e comparação com o plano de rota
- Os alertas de parada não prevista, desvio de itinerário e horários de risco
- A comunicação centralizada com o motorista, com trilha de auditoria
Camada 5: governança
Essa é a camada que o gestor de GR esquece de tratar como tecnologia e que a seguradora lê primeiro.
Desde a Lei n.º 14.599/2023, o transportador rodoviário de cargas precisa contratar três seguros: RCTR-C (danos à carga em acidentes), RC-DC (desaparecimento de carga por roubo, furto, apropriação indébita, estelionato e extorsão) e RC-V (danos a terceiros). A lei também amarrou as coberturas ao Plano de Gerenciamento de Riscos (PGR).
Em seguida veio o aperto de fiscalização:
- A Resolução ANTT n.º 6.068/2025 condicionou a inscrição e a manutenção no RNTRC à comprovação da contratação desses seguros
- A Portaria Suroc n.º 27/2025 definiu os procedimentos de comprovação, com integração eletrônica entre seguradoras e ANTT prevista para plena implementação a partir de 10 de março de 2026
- As exigências de comprovação para manutenção do registro passaram a valer na prática ao longo de 2026, com risco de suspensão do RNTRC para quem não comprovar
Na prática, para a sua operação, isso significa: a apólice regular virou condição de operar, o PGR virou documento vivo e fiscalizável e a evidência de checagem de cada motorista virou ativo de sinistro. Assim, guarde o comprovante de validação porque ele costuma ser exigido pela seguradora na regulação.
O impacto direto na apólice de seguro de carga
Risco, para a seguradora, é a combinação entre o perfil da carga, a rota e a qualidade do seu processo de gestão. O que costuma pesar na negociação da renovação:
| Fator | O que a seguradora avalia | Como o GR 2.0 melhora |
|---|---|---|
| Sinistralidade histórica | Frequência e severidade dos eventos | Menos desvios por fraude na contratação |
| Aderência ao PGR | O plano é cumprido ou existe só no papel? | Processo padronizado e auditável |
| Homologação de prestadores | Como o motorista terceiro é validado | Biometria + checagem oficial + histórico |
| Rastreabilidade da operação | Existe trilha documental? | Negociação, coleta e pagamento registrados |
Ou seja, em vez de focar em pagar menos, é importante se informar antes sobre o que está incluído na cobertura.
Diagnóstico: em que nível está o seu GR?
☐ Nível 1: reativo
Rastreador instalado, checagem manual por planilha, negociação por WhatsApp, PGR desatualizado. Exposto a triangulação e clonagem.
☐ Nível 2: padronizado
Checagem documental sistemática, PGR em dia, seguros regulares, rastreamento com alertas. Ainda vulnerável para fraude de identidade sofisticada.
☐ Nível 3: GR 2.0
Validação biométrica com prova de vida, score de risco por histórico, negociação e pagamento auditáveis na mesma plataforma, monitoramento por checkpoints e evidência documental arquivada por operação.



